Esta carta não tem palavras. É feita do sono solto e dos sonhos presos. Foi escrita com as migalhas da primeira ceia, dos segredos que sobejaram, e dos olhares afiados. Esta carta não tem fim. Não vale mais que o testemunho de um corpo murcho. Dormidor do relento, e mesmo quando coberto de tecto se fez ir ao fundo do colchão, manchado. Do sangue da fria relutância ao vício. Não passa de um lamento às fontes estiadas, que já nasceu vão e nunca chegou. É um choro de versos enxutos e refrães esfaimados e eu já nem sou de carne. Não é nada afinal. É uma carta mais vaza que a maré, em tom de canção de despedida, e nem nas cores do búzio me faço ouvir. Estou já nos grãos que se fizeram pó. Estou já nas cores do céu que se pôs. Estou também nas varandas sem sardinheiras e estou por detrás das estrelas. Só que não me vejo. Só de fora para dentro. E não me ent...
Dançam as folhas das árvores ao sabor do sopro dos céus, pausado e constante. Os tons verdes e castanhos imiscuem-se numa mancha de cores secas e tranquilas emitindo um canto refrescante. E estamos nós neste quadro, pequenos apontamentos humanos caminhando por entre pétalas e raízes. Estou a olhar-te, sim. Como as palavras vêm à tona e explodem em forma de gota nos meus lábios. Crio uma nova linguagem, de silêncio, de intensidade, de verdade. Estou a ver-te. Reduzo-me a um corpo, inerte, absorvido em si mesmo pelos teus gestos. Se soubesses tudo o que penso, em forma de chuvas torrenciais, que humedecem meus olhos. Fico, só assim. Mal ouço meu respirar. Raíz
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