Esta carta não tem palavras. É feita do sono solto e dos sonhos presos. Foi escrita com as migalhas da primeira ceia, dos segredos que sobejaram, e dos olhares afiados. Esta carta não tem fim. Não vale mais que o testemunho de um corpo murcho. Dormidor do relento, e mesmo quando coberto de tecto se fez ir ao fundo do colchão, manchado. Do sangue da fria relutância ao vício. Não passa de um lamento às fontes estiadas, que já nasceu vão e nunca chegou. É um choro de versos enxutos e refrães esfaimados e eu já nem sou de carne. Não é nada afinal. É uma carta mais vaza que a maré, em tom de canção de despedida, e nem nas cores do búzio me faço ouvir. Estou já nos grãos que se fizeram pó. Estou já nas cores do céu que se pôs. Estou também nas varandas sem sardinheiras e estou por detrás das estrelas. Só que não me vejo. Só de fora para dentro. E não me ent...
Verto o viver para um copo, de plástico. Um líquido espesso e escuro ondula, Seguindo a pulsação do meu respirar. Deixa um rasto de sentidos pensados, Em forma de sedimento de matéria, Em descanso, outrora límpida. Com um sopro, embacio suas paredes. Artificiais, manchadas com a orgânica, Própria do ser vivido. Que apenas goteja. Que não queima ou congela. Que não fere os braços desnaturais. Que a envolve, que a aperta. Que a estrangula. Roxa numa agonia. Que desmaia. Só olhando para cima vejo a luz, Vejo-me a mim própria, Curvada perante o copo. Esvaziada para a realidade, dissimulada. Fabricada e seca de paixões. E eu, sorrio. Atónita.
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